Criando asas para voar

Em março do ano passado Patrícia Manchine rumou para Amsterdam na Holanda por meio do programa Au Pair, onde ficou meio ano trabalhando de babá cuidando de duas crianças holandesas e aperfeiçoando o inglês. Em setembro novamente arrumou suas malas e veio para a cidade do Porto em Portugal cursar mestrado no curso de História e Patrimônio. Na entrevista, a intercambista nos coloca á par de suas experiências em viver fora de seu berço.

01 – Como tudo começou? Estava para me formar no ano de 2099 e no mês de setembro decidi fazer intercambio, mas mesmo antes das aulas no mestrado iniciarem decidi vir para Europa para conhecer os países e aperfeiçoar o meu inglês. Foi então que comecei a procurar os países que estavam cadastrados no programa Au Pair e quando encontrei a Holanda na lista dos países conveniados, adorei!

02 – Porque a Holanda? Decidiu vir para Holanda pelo estilo de vida, de andarem de bicicleta, de ser um país pequeno, mas ter uma população de mente aberta, por serem receptivos a estrangeiros, e estar bem localizado, para poder viajar bastante.

03 – Como foi à aceitação da parte dos teus pais com o intercambio? A idéia de ir para a Holanda a principio não os agradou, pela simples razão de não concordarem com o fato de eu estar me formando em uma Universidade bem conceituada no Brasil e ir para a Holanda cuidar de duas crianças, eles argumentavam dizendo que eu não estava estudando para ser babá. Mas eu mostrei o lado positivo de estar na Europa, que mesmo trabalhando de babá, eu estaria recebendo um bom salário e não teria gastos com alimentação e aluguel, poderia aperfeiçoar o inglês e poder viajar para muitos lugares com pouco dinheiro. A principio este intercambio seria por um ano, mas eu mudei de idéia quando eu vi a possibilidade de vir para Portugal fazer mestrado, então eu cancelei o contrato com a família.

04 – Como foi o processo burocrático para entrar na Holanda e depois para entrar em Portugal? O tempo de duração para o visto na Holanda demorou em torno de dois meses, foi um processo bem burocrático, mas quem deu entrada no visto e cuidou de todos os documentos foi à família na Holanda, a minha responsabilidade se simplificou em tirar o passaporte e enviar a cópia para eles, se teve complicações eu não fiquei a par da situação.  Dois meses depois, os documentos vieram até São Paulo, então eu tive de ir até lá levando o meu passaporte, certidão de nascimento atualizada e registrada em cartório e uma cópia traduzida para o Holandês. Apenas isso, o que é bem diferente do processo de visto de quando um estudante vem para Portugal ou outro país da Europa. Já quando eu cheguei aqui no Porto, tive de cancelar o visto de residência na Holanda e solicitar um aqui, pois não se pode ter dois vistos na Europa para países diferentes.

05 – Como foi a sua vivencia na Holanda? No início eu não gostei, pois estava morando longe de meus pais, eu morava em outra cidade no tempo em que estudava, tinha toda a minha liberdade, e de repente voltei a morar com uma família que não era a minha, eu me deparei condicionada a rotina de pessoas que eu não conhecia, e isso foi muito estranho. Demorei muito para me adaptar, e quando eu já estava adaptada eu sai para vir pra Portugal.

06 – Porque intercambio em Portugal? Na verdade eu já tinha muita vontade de vir para Portugal, mas para eu sair do Brasil no mês de dezembro, alta temporada para viagens, ou em agosto, eu iria precisar de muito dinheiro para comprar a passagem e pagar a propina da Universidade, então eu vi na oportunidade de ir para a Holanda uma boa solução, pois a parte burocrática foi da família holandesa que ainda me reembolsaram a passagem de ida até o país. O beneficio foi enorme!

07- Porque a cidade do Porto? A vinda para Portugal foi devido a situação que eu estava, era o caminho mais fácil pela questão da língua, pois se eu tivesse interesse em estudar na Espanha, Itália ou até mesmo na Holanda eu teria de fazer um teste de proficiência, possuo um inglês avançado mas não fluente para nível acadêmico.  Outra questão foi o lado financeiro, como eu não tenho passaporte europeu se eu fosse estudar na Holanda eu teria de pagar nove mil euros de propina por ano, sendo que aqui o custo é em torno dos 1300 euros, uma diferença muito alta, e também por Portugal ser um dos países da Europa que possui um custo de vida baixo em relação aos outros.

Analisando o valor da propina aqui na Universidade do Porto, parcelado em 12 vezes o valor fica muito acessível, ao contrario do mestrado no Brasil, onde se paga muito caro, além do difícil processo de seleção que você paga e envolve analise de curriculum, provas, entrevistas…

Escolhi a cidade do Porto por passar no mestrado que eu queria muito “História e Patrimônio” que existe somente em uma Universidade no Brasil. Akém do mais, Porto é uma cidade que tem vida, possui fácil acesso a cidades pertos, pega se o trem e por pouco tempo e euros você viaja até qualquer cidade histórica do país.

08 – Como está sendo estudar fora do Brasil? Na Holanda eu tive um convívio pequeno com as pessoas, No Brasil eu morava em outra cidade mas no mesmo estado de minha família. Conhecia bastante as pessoas e os professores.

O que eu sinto aqui é que os professores são distante dos alunos, como a experiência que eu tive de não ter respostas de e-mail, lá no Brasil eu me sentia em casa, eu tinha acesso a sala dos professores para pedir opiniões acadêmicas, eles eram mais próximos. A universidade não tinha muita estrutura devido à faculdade ser do governo muitas coisas não funcionavam. Já aqui a estrutura é perfeita, a limpeza, os laboratórios, eu só sinto em comparação a Holanda que falta integração entre aluno e professor. Os Portugueses são muito receptivos, mas são reservados a questão da sua turma, aqui e na Holanda eu senti esta frieza, portugueses com portugueses. E no Brasil não somos assim, todos querem ser amigos de todos.

09 – Quais os laços de amizades que fez até o momento? Na Holanda eu fiz muita amizade sólida com brasileiros, amigos com quem falo diariamente e que levarei para o resto de minha vida. Eu estava num país diferente então quando encontrava algum brasileiro eu me identificava, deseja sempre estar perto, eu observo que a partir disso passei a ver o sentido da amizade principalmente pelo fato de querer ajudar as pessoas que estavam na mesma situação que eu.  Falando de minha família holandesa os laços que criei foram com as crianças, pois o casal eram individualistas. Eles deixavam bem claro que eu estava lá para trabalhar, a minha vida era em função deles, e em alguns momentos eles eram bem criteriosos. A relação era como se eles fossem meus pais só que sem o sentimento envolvido, porque os seis meses que eu fiquei ainda não foram o suficiente para criar forte vinculo devido a diferença cultural é muito grande.

10 – Qual é a força da saudade? No Brasil eu sinto saudade da minha família, do verão do clima, pois adoro verão e o jeito brasileiro de ser: simpático, integrador. Na Holanda sinto falta dos ambientes, lá é tudo quentinho, pode ficar de roupa curta em qualquer local fechado, dos transportes públicos tudo muito rápido e limpo, e claro das bicicletas, sinto muita falta, pois fazia tudo de bicicleta: levava as crianças para a escola, ia para as festas e fazia as compras de supermercado…

Mas do que eu sentirei mais saudade de quando eu for embora será da liberdade que eu tenho de viajar pela Europa gastando pouco, das pessoas que conheci, de sair de casa e saber que eu posso fazer amizade com um turco, ou um italiano. De saber que se eu quiser ir para Madrid eu posso gastar menos que a compra de um casaco. De viver bem e gastar pouco.

11 – Como você analisa as experiências que teve até o momento? Dentro de minha bagagem cultural eu vou guardar culturas diferentes: Brasil, Holanda e Portugal. Portugal colonizou o Brasil e estando aqui eu observo muita atitude de português que me lembra tanto o Brasil, algumas coisas são muito parecidas e outras tão diferentes.   Os Holandeses são muito cabeça aberta em termos de sociedade, e para certas coisas neste ponto o Brasil é muito careta.  Chegar a um país onde a droga e a maconha é liberada, as pessoas fumam como se fossem beber água e fazem sexo casual, tudo isso para eles é algo aberto e normal e mesmo com toda essa “liberdade” o povo é muito rigoroso, pagam imposto, mantém as ruas limpas, compram os bilhetes de trem mesmo sem fiscal por perto, as pessoas tem consciência, são muito responsáveis. Algo que no Brasil não acontece.  Portugal tem uma cultura em termos de responsabilidade semelhante à Holanda, um exemplo disso foi quando eu esqueci minha bolsa em um provador de uma loja e quando eu voltei para ver se a encontrava eu recebi a bolsa intacta. Do jeito que alguém encontrou, devolveu. Eu admiro demais isso!

Posso destacar algo que faço muito aqui que é andar a pé, ir para as festas caminhando. Na Holanda eu andava de bicicleta e aqui a pé. Duas experiências diferentes do Brasil. E analisando essas experiências eu percebo como as coisas são simples. Aqui as pessoas têm uma liberdade que no Brasil não se tem, como por exemplo, ir para uma festa caminhando, ou de bicicleta como na Holanda. E ao mesmo tempo você tem laços de amizade no Brasil que aqui não temos.

12 – A dica de Patrícia para estudantes que desejam fazer intercambio: A vida é muito breve e valiosa, então você tem de se descobrir, e você só vai conseguir fazer isso quando sair do seu território seguro, quando estiver longe de casa, da sua cultura, da sua família. Então você vai aprender a sobreviver de maneira própria. Vai conhecer pessoas, trocar idéias e experiências, vai abrir a mente e buscar uma identidade, às vezes você tem certeza da pessoa que é, mas em momentos de apuros e desespero você se descobre outro. É tão bom aprender metodologias novas, viajar e conhecer pessoas, são experiências de vida que ninguém te rouba. É o mudo! Essa cultura de integração, a raça humana é uma só mas é  tão diversificada. Tudo parecia de novela… Aqui eu me sinto muito bem! Deslumbrada…

Por Nay Back – Intercambista UP.

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